Eu chamo de Escolhido um tipo humano muito conhecido e amplamente criticado, sob diferentes perspectivas, por Roger Scruton, Thomas Sowell e Olavo de Carvalho. É o sujeito que se considera moral e intelectualmente ungido para conduzir uma humanidade incapaz de compreender sozinha seus próprios interesses. Sowell chamou essa elite de “os ungidos”. Pondé costuma explorar a vaidade moral de quem transforma a própria bondade em espetáculo público, enquanto João Pereira Coutinho ironiza com frequência esse progressista moralmente autossatisfeito, sempre convencido de estar do lado certo da história. O Escolhido não tem apenas opiniões políticas. Ele acredita possuir uma superioridade moral e intelectual que lhe permite explicar a realidade aos demais.
A recente fala de Eduardo Cardoso, comentarista progressista da CNN, é uma aula involuntária sobre esse personagem. Ao tentar explicar o crescimento da direita no mundo, Cardoso pergunta por que “nós temos uma ascensão da divulgação de uma visão de mundo mais conservadora”. Nós quem, Cardoso? Quem são esses seres perplexos com o estranho fenômeno de conservadores começarem a divulgar suas próprias ideias? Por que exatamente essa ascensão exige uma explicação quase antropológica?
A resposta aparece logo depois. Segundo Cardoso, a internet deu vazão ao “senso comum”, formado por ideias imediatas, empíricas, não refletidas e dogmatizadas. Isso teria acontecido porque desapareceu o “filtro de reflexão através de comunicadores”. É uma frase maravilhosa. O jornalista, o intelectual progressista e o comentarista seriam os filtros intelectuais da sociedade. Você pensa, mas seu pensamento ainda é bruto. Precisa passar por Eduardo Cardoso e seus pares para voltar a você devidamente refletido e transformado em “opinião pública”.
A internet estragou tudo. O imbecil ganhou um celular e começou a falar diretamente com outros imbecis sem pedir autorização ao jornalista, ao professor universitário ou ao intelectual progressista. Descobriu autores, documentos, estatísticas, dados de fontes primárias, discursos completos, vídeos sem cortes, opiniões praticamente de todos os tipos de pessoas do mundo; tudo que antes dependia da seleção dos Escolhidos da comunicação do campo progressista. O antigo filtro perdeu o monopólio e, curiosamente, começou a crescer uma visão de mundo conservadora. Que fenômeno assustador, não!
Cardoso então resolve demonstrar como funciona seu próprio filtro. Afirma que “estudos científicos mostram claramente” que a arma não é instrumento de defesa, mas de ataque. Quais estudos? Ele não diz. Em seguida, confunde a posse de uma arma para defesa com a reação armada durante um assalto em andamento e usa a recomendação policial de não reagir a um roubo como argumento contra a eficácia defensiva das armas. Troca o referente, generaliza a conclusão e invoca a autoridade abstrata da ciência. Pronto. A opinião bruta do imbecil acaba de passar pelo filtro intelectual do comunicador.
Mas o Escolhido se revela por completo no final, quando Cardoso explica que vivemos o crescimento de “um valor não refletido, não filtrado intelectualmente” que favorece o conservador. Entendeu? Você não é conservador porque leu Scruton, Sowell, Hayek, Mises, Kirk ou Burke. Você não refletiu sobre segurança, Estado, liberdade, família ou responsabilidade individual. Você é conservador porque sua pobre mente não passou pelo filtro intelectual dos comunicadores progressistas.
O Escolhido não discorda de você. Ele explica você. Ele sabe por que você pensa o que pensa. Você, evidentemente, não sabe.
Talvez seja exatamente essa arrogância insuportável que explique por que tanta gente desligou a televisão, abandonou os grandes jornais e foi para a internet. O problema, Cardoso, talvez não seja que a internet tenha dado voz aos imbecis. Talvez ela apenas tenha retirado dos Escolhidos o poder de decidir quem eram os imbecis.
Trecho do vídeo de 1:33 a 6:02 que foi alvo da crítica do texto:
“Cardoso, muito bem-vindo. Boa noite. Ana Amélia traz aqui o bolsonarismo, a ascensão do bolsonarismo. Concorda? Por que os brasileiros preferem a direita à esquerda?
Olá, Juliana. Olá, Ana. Eu tenho boa concordância com aquilo que disse a Ana, mas eu tenderia a ampliar mais. Eu não acho que esse seja um fenômeno só brasileiro. Ele é um fenômeno que está acontecendo no mundo e, como tal, nós temos que encontrar explicações para aquilo que acontece no mundo.
Eu vejo, por exemplo, nos Estados Unidos da América, um crescimento daqueles valores conservadores, muitas vezes vinculados ao discurso capitaneado por Donald Trump. Eu vejo, na Argentina, também a situação capitaneada por um discurso identificado com Milei; na Itália, com Meloni; na França, com Le Pen. Há todo um conjunto de situações que nos fazem perguntar por que, neste momento histórico, nós temos uma ascensão da divulgação de uma visão de mundo mais conservadora ou, se me permitem dizer, mais à direita.
Eu acho que há várias explicações, várias, e aí estariam vários grandes debates para nós debatermos todas elas. Mas uma imediata diz respeito à nova forma de comunicação introduzida pela rede mundial de computadores, ou seja, pela internet. Ela deu margem a uma situação de expressão do senso comum muito maior do que aquilo que existia no passado.
E eu quero fazer aqui uma distinção entre opinião pública e senso comum. Opinião pública é uma opinião já avalizada, refletida, consolidada. Não sei se correta ou errada, não estou entrando nesse mérito, mas partindo de uma dimensão crítica, de reflexão maior pelo conjunto da sociedade, que forma a sua opinião. O senso comum é aquela ideia imediata, empírica, não refletida, dogmatizada, que as pessoas expressam.
Bem, a internet deu vazão a isso, ao senso comum. E eu não quero dizer que o senso comum só tenha valores de direita ou conservadores, não. Eu posso ter valores de esquerda também enraizados no senso comum, não é isso? Mas a tendência do senso comum, sem um filtro de reflexão através de comunicadores, deu margem a algo que Umberto Eco, um pouco elitista na sua fala, disse: que a internet deu voz aos imbecis. Ou seja, é a divulgação massificada do senso comum que a internet permitiu.
O que me parece um pouco elitista, porque as pessoas têm direito a dizer imbecilidades, direito a ser imbecis, um direito consagrado como decorrência da liberdade de expressão, não é verdade? Mas o problema não está em quem fala imbecilidade; está em quem acredita.
Isso mostra que o senso crítico nas sociedades atuais é muito pequeno, o que fortalece a ideia do senso comum, da dogmatização e o que fortalece uma situação consolidada de percepção óbvia, não fruto de uma reflexão amadurecida das causas.
Então, muitas vezes, você vê valores sendo reproduzidos que não têm a menor correspondência com a realidade. As pessoas acreditam piamente nisso porque não passaram por um filtro de reflexão. E aí eu tenho uma uniformização, uma horizontalização da informação dentro do campo do senso comum.
Isso favorece a visão conservadora e por uma outra questão: uma inércia da esquerda. A inércia, por pragmatismo, determinada pelo não agir da esquerda ao enfrentar certas questões.
Vou dar um exemplo. Um valor muito difundido no Brasil e que talvez se qualifique muito como de direita é a defesa da arma. A arma na sua casa, a arma como defesa pessoal. Estudos científicos mostram claramente que a arma não é um instrumento de defesa, é um instrumento de ataque. Inclusive, as polícias recomendam que não se utilize a arma para enfrentar alguém num carrinho de assalto, porque aumenta a possibilidade de você ser atingido. Em vez de você perder o patrimônio, você pode perder a vida.
Então, situações desse tipo, que não passam por uma reflexão mais aguda, tendem a socializar e a dogmatizar uma visão conservadora. E, às vezes, a esquerda fica quietinha, dizendo: “Não, eu não vou enfrentar isso porque isso me faz perder votos”. Não, isso é ser pragmático.
Outro exemplo: a redução da maioridade penal, que não passa por um crivo, no Brasil, de uma discussão séria que mostra que aumentaria a criminalidade porque os presídios ficariam mais abarrotados, com menores. Essa discussão…
Então, tudo isso favorece um campo, no mundo, de crescimento de um valor não refletido, não filtrado intelectualmente, que, tendencialmente, neste contexto histórico, favorece mais o conservador.”

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