O uso do argumentum ad hominem é uma consequência do analfabetismo funcional que domina a militância histérica, composta, em grande parte, por uma nova geração de analfabetos funcionais. O analfabetismo funcional significa, entre outras deficiências, que uma pessoa não consegue compreender adequadamente o referente de uma palavra na vida real. Explico. O idioma pode ser compreendido por uma relação entre signo, significado e referente. O signo é a palavra que remete a uma ideia. Por exemplo, “lápis”. O significado é o conceito associado a essa palavra; e o referente é a coisa existente à qual ela se refere no mundo: o lápis concreto. O analfabeto funcional apresenta profunda deficiência em correlacionar esses componentes. Pode conhecer uma palavra e até repetir a sua definição, mas, ao encontrar o fenômeno real diante de si, sente dificuldade para reconhecê-lo como referente daquele signo. Também pode ser incapaz de fazer o caminho contrário: converter referentes e experiências reais do mundo em signos e significantes, não conseguindo se expressar adequadamente pela fala e pela escrita. Isso não significa simplesmente “não saber ler”. Significa ter dificuldade para compreender e usar informações escritas, numéricas e digitais em situações reais.
Num debate, discordar exige ter chegado a um argumento sobre o tema em questão depois de uma análise ou estudo que requer conhecimento prévio. Interpretar exige atenção, repertório, vocabulário, nuance, pensamento crítico e elegância mental. Mas o analfabeto funcional, ao não alcançar a ideia, tropeça no próprio repertório — ou na falta dele —, sente-se atacado e responde à ameaça imaginária com violência e ódio. É uma reação ao desconforto provocado pelo encontro com algo que não conseguiu processar. Sente-se ofendido e, sem reconhecer a própria ignorância sobre o assunto, interpreta o conhecimento apresentado como símbolo da arrogância de quem adquiriu algum conhecimento ou experiência que ele não tem. Assim, ao não conseguir enfrentar o argumento, ataca quem falou, o tom, a intenção, a personalidade, a aparência, a idade, o viés político, o ego ou até mesmo o passado. É o caminho preferido de quem não consegue sustentar uma resposta a uma tese. A falácia retórica mais comum nas redes sociais é o ARGUMENTUM AD HOMINEM.
Agora leve esse dado para uma internet que premia a pressa, a indignação, o pertencimento de manada e a resposta imediata. Um ambiente sofista de retórica erística, onde todos querem competir, mostrar que são inteligentes e provar que têm opinião sobre qualquer coisa que esteja sendo dita. A dissonância cognitiva reina. Ninguém pensa ou escuta; apenas reage, fala e xinga, pois as pessoas não estão tentando entender. Estão tentando vencer uma discussão numa competição que elas mesmas inventaram. A pessoa até lê, mas não interpreta. E, quando não interpreta, preenche as lacunas com projeção. Uma mensagem passa pela atenção de quem lê, pelo vocabulário que possui, pelas crenças que carrega, pelas dores que projeta, pela maturidade emocional que tem e pela capacidade de abstração que consegue sustentar.
A ignorância humilde, que pergunta, estuda e tenta compreender, foi a que moveu o mundo e a ciência. Mas a ignorância confiante é hoje um dos maiores perigos para a convivência humana.

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