Na audiência final do USTR ficou evidente quem estava disposto a defender os interesses do Brasil e quem preferiu assistir tudo de longe para depois explorar politicamente o resultado. Enquanto o governo Lula apostava na retórica da soberania nacional para consumo interno, Flávio Bolsonaro sentou-se diante dos responsáveis pela decisão sobre o tarifaço e fez o que um representante sério faria: apresentou argumentos, dados e uma estratégia para evitar prejuízos ao país.
Falando em inglês, Flávio recordou que já havia levado os mesmos argumentos diretamente ao presidente Donald Trump, ao vice-presidente J.D. Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio. Sua mensagem foi clara: impor tarifas ao Brasil neste momento não enfraquece o governo Lula. Ao contrário, fortalece exatamente quem se pretende pressionar.
E demonstrou isso com fatos.
Enquanto o comércio entre Brasil e China atingiu US$ 171 bilhões em 2025, o intercâmbio com os Estados Unidos ficou em aproximadamente US$ 83 bilhões. As exportações brasileiras que deixam de entrar no mercado americano simplesmente encontram outro destino: a China. O resultado prático é o oposto do desejado. Cada nova tarifa reduz a influência econômica americana no Brasil e amplia a dependência comercial brasileira em relação a Pequim.
Depois, Flávio organizou sua defesa em três pontos centrais: censura, corrupção e PIX.
Sobre a censura, lembrou que as ordens sigilosas contra plataformas digitais americanas não partiram do Congresso Nacional, mas de decisões judiciais e atos do próprio governo. Ou seja, possuem responsáveis identificáveis. Punir toda a população brasileira por decisões tomadas por autoridades específicas não faz justiça. Apenas transfere para o cidadão comum o custo de escolhas que jamais passaram pelo voto popular.
Ao tratar da corrupção, foi ainda mais direto. Recordou que os maiores escândalos da história recente do Brasil — Mensalão, Lava Jato, fraudes no INSS e o caso Banco Master — ocorreram sob governos do Partido dos Trabalhadores. Em contraste, destacou que os quatro anos do governo Bolsonaro transcorreram sem escândalos de corrupção comprovados. A conclusão é inevitável: se o próprio processo da Seção 301 aponta problemas institucionais brasileiros, eles têm responsáveis. Não faz sentido transformar toda a sociedade brasileira em alvo da punição.
Na sequência, desmontou outra narrativa construída contra o Brasil: a do PIX.
Explicou que o sistema, criado durante o governo Bolsonaro, bancarizou milhões de brasileiros que antes estavam excluídos do sistema financeiro, impulsionou a economia formal e, longe de prejudicar empresas americanas, ampliou também o mercado das bandeiras internacionais de cartões, que operam de forma complementar ao PIX. O PIX não é uma ameaça aos Estados Unidos. É um caso de sucesso.
Mas talvez o argumento mais inteligente tenha sido justamente o político.
Flávio alertou que uma tarifa aplicada às vésperas da eleição presidencial não atingiria quem criou os problemas. Serviria apenas para entregar ao governo Lula exatamente o discurso que ele deseja: o da falsa defesa da soberania nacional diante de um inimigo externo. Em vez de enfraquecer o governo, a medida poderia transformá-lo na vítima perfeita da narrativa do “Brasil contra o império”, reciclando internacionalmente o velho discurso do “nós contra eles” utilizado há décadas pela esquerda.
Como se isso não bastasse, um dia antes da audiência a própria Tesla, por meio de Elon Musk, protocolou manifestação afirmando que a tarifação sobre matérias-primas brasileiras encarece produtos fabricados nos Estados Unidos. Ou seja, parte do próprio setor produtivo americano advertiu que a medida também prejudica empresas e consumidores dos EUA.
Enquanto empresas brasileiras, empresas americanas e Flávio Bolsonaro trabalhavam para convencer o USTR a não adotar uma decisão prejudicial aos dois países, o governo Lula simplesmente não compareceu presencialmente ao momento mais importante de todo o processo. Preferiu permanecer ausente das negociações e preservar o discurso que fará depois, caso as tarifas sejam confirmadas.
A diferença não poderia ser mais clara.
De um lado, quem foi a Washington negociar, apresentar dados, defender o PIX, combater a censura, denunciar a corrupção e tentar impedir um prejuízo concreto para o Brasil.
Do outro, quem apostou que uma crise internacional poderia render dividendos eleitorais.
No fim da audiência, ficou evidente que havia apenas uma voz defendendo o Brasil diante do USTR.
E ela não saiu do Palácio do Planalto. Saiu da bancada onde estava sentado Flávio Bolsonaro.

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