A suspensão da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, a pedido direto de Lula, não pode ser compreendida como gesto técnico, pragmático ou circunstancial. Trata-se de um erro estratégico de largo alcance, que ignora décadas de acúmulo histórico e premia exatamente o ator mais experiente, resiliente e articulado da esquerda latino-americana: Luiz Inácio Lula da Silva. Ao retirar Moraes da condição de pária internacional, Washington não desarmou um conflito diplomático; consolidou um regime. E o fez no pior momento possível, quando os mecanismos de freios e contrapesos no Brasil já estavam severamente corroídos por um Judiciário politizado, disposto a substituir a soberania popular por decisões monocráticas travestidas de legalidade.
Lula não é um presidente “progressista” comum. Ele é o arquiteto político do Foro de São Paulo, criado em 1990 em aliança direta com Fidel Castro, como resposta estratégica à queda do Muro de Berlim e ao colapso do socialismo soviético. O Foro não nasceu para debater ideias; nasceu para reorganizar o comunismo no Ocidente. A estratégia era clara: abandonar a luta armada aberta, preservar a retórica democrática, ocupar o Estado por dentro e transformar eleições, tribunais, universidades, sindicatos e mídia em instrumentos permanentes de poder. Fidel trouxe a doutrina revolucionária e a experiência; Lula trouxe a legitimidade internacional, o acesso à social-democracia europeia, às ONGs, aos fóruns multilaterais e à respeitabilidade externa. Sem Lula, o Foro jamais teria transcendido o gueto ideológico. Ele foi o normalizador do projeto.
Nesse desenho, o bolivarianismo não foi criação espontânea de Hugo Chávez. Foi incorporado, legitimado e protegido pelo Foro, com o aval político de Lula. Maduro é herdeiro direto dessa engrenagem. Evo Morales, Correa, Ortega, Kirchner e seus sucessores orbitam a mesma matriz estratégica. A coordenação de discursos, o apoio cruzado em eleições, a blindagem mútua entre governos e a relativização sistemática de abusos “do lado certo da história” são marcas do projeto. A ideologia é o cimento; o poder, o objetivo.
Dentro desse ecossistema, o narcotráfico nunca foi um desvio colateral. Foi — e continua sendo — instrumento revolucionário consciente. Financia partidos, corrompe instituições, captura territórios, desmoraliza o Estado e sustenta a guerra assimétrica contra democracias liberais, sobretudo os EUA. As FARC, o chavismo, o regime cubano e seus satélites compreenderam isso desde cedo. O Foro jamais promoveu um combate estrutural ao narcotráfico porque ele é funcional ao projeto. O lulopetismo, coerente com essa lógica, recusa classificar facções criminosas como terrorismo, relativiza o crime organizado como fenômeno social e mantém intacta a infraestrutura que degrada a sociedade e enfraquece a soberania. Isso não é omissão: é método.
É aqui que as falas recentes dos dirigentes máximos do PT eliminam qualquer dúvida interpretativa. No 8º Congresso Nacional do PT, em 5 de dezembro de 2025, José Dirceu — operador histórico do projeto, elo entre a velha guerrilha e o novo institucionalismo — afirmou, sem rodeios, que o partido tem a responsabilidade histórica de romper o pacto institucional vigente, realizar uma “revolução social” no Brasil, enfrentar o imperialismo americano e redefinir a democracia para além do modelo liberal. Falou explicitamente em risco de guerra, em necessidade de reforma política profunda, em submissão do Congresso e em transformação estrutural do regime. Valter Pomar, por sua vez, foi ainda mais direto: declarou que o capitalismo é um mundo “brutal”, que o socialismo é condição de sobrevivência, que os EUA irão interferir nos processos eleitorais brasileiros e que o PT deve se preparar para enfrentar o imperialismo como inimigo estratégico. Lula não disse uma palavra — mas seus principais dirigentes disseram tudo.
É nesse contexto que a revogação da Magnitsky precisa ser lida. Ela não decorreu de mudança objetiva de conduta, mas de promessas feitas por Lula — promessas que colidem frontalmente com os pilares da política interna lulopetista e com o discurso real do partido. A chamada Lei da Dosimetria foi vendida ao trumpismo como prova de “equilíbrio institucional”. Porém, o próprio PT convoca manifestações contra qualquer anistia, criando a narrativa perfeita para lavar as mãos: Lula “tentou”, mas o “povo” não quis. Pior: Lula já sinalizou que vetará a lei; e, se o Congresso derrubar o veto, Alexandre de Moraes já indicou que a anulará por inconstitucionalidade. Ou seja, a única evidência apresentada a Washington já nasce morta. A perseguição política não cessará; vai se intensificar, exatamente como ocorreu na Venezuela, onde ajustes cosméticos serviram para legitimar prisões e silenciar opositores.
O mesmo padrão se repete nas demais promessas. Combate real ao narcotráfico? O governo se recusa a tratá-lo como terrorismo. Acesso preferencial dos EUA às terras raras? Ativos estratégicos já foram adquiridos por estatais chinesas. Fim da censura? Lula mantém como obsessão a regulamentação das redes sociais enquanto sustenta um Judiciário censor. Ruptura tecnológica com a China? Dias antes da suspensão da Magnitsky, Brasil e Pequim anunciaram novos projetos conjuntos. Lula prometeu tudo o que não podia — e não pretendia — cumprir.
A suspensão da Magnitsky fortaleceu Lula, Moraes e o regime. Moraes opera acima do Legislativo, anula votações soberanas, cassa mandatos e estabelece o precedente de que o Congresso só decide enquanto concordar. O Parlamento torna-se homologatório; a soberania popular, condicional. Não por acaso, Dirceu já prepara o terreno discursivo para reformas políticas radicais. O regime sente-se seguro, blindado e vitorioso. A suspensão da Magnitsky funcionou como sinal verde internacional.
Tudo isso confronta frontalmente o “Trump Corollary” à Doutrina Monroe. Ao ceder no Brasil, Washington contradisse a própria doutrina que acabara de proclamar. Em vez de dissuasão, ofereceu legitimação; em vez de pressão, concedeu tempo. O resultado é inequívoco: os EUA acabam de incubar a próxima Venezuela — no maior país do hemisfério sul.
Regimes assim não recuam por boa-fé. Avançam até onde não encontram resistência. A Magnitsky não era um capricho; era um freio. Ao suspendê-la, Washington não ganhou estabilidade; perdeu posição. A pergunta não é se haverá custo, mas quando — e quão alto.

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