Quando Lula afirma publicamente que a eleição será uma disputa entre democracia e fascismo, e quando reforça que a chamada “extrema-direita não pode voltar a governar”, ele não está apenas fazendo uma crítica política ao adversário, mas está operando uma redefinição profunda do próprio conceito de democracia. Ao enquadrar a disputa nesses termos, Lula desloca o debate do campo institucional para o campo moral absoluto, onde não há mais espaço para divergência legítima, apenas para a distinção entre o bem e o mal. Nesse enquadramento, o projeto de poder lulopetista deixa de ser uma alternativa política entre outras e passa a se apresentar como a própria encarnação da democracia.
Essa construção se torna ainda mais evidente quando setores da campanha do PT e de seu entorno passam a difundir a ideia de que figuras como Flávio Bolsonaro representariam uma ameaça de instalação de ditadura. Não se trata aqui de uma análise institucional concreta baseada em atos, propostas ou estruturas de poder, mas de uma narrativa que antecipa um julgamento moral absoluto do adversário. Ao atribuir previamente ao outro o papel de ditador em potencial, elimina-se a possibilidade de tratá-lo como agente político legítimo dentro das regras do jogo democrático. O adversário não é apenas alguém com quem se discorda, mas alguém que deve ser impedido.
Esse tipo de discurso se encaixa com precisão na lógica dos Ungidos de Thomas Sowell. O agente político se apropria do discurso humanista e democrático e passa a se identificar com ele de forma totalizante. Lula e o projeto lulopetista não se apresentam apenas como defensores da democracia, mas como a própria democracia em ação. A consequência disso é direta: se eles são a democracia, qualquer oposição a eles passa a ser interpretada como oposição à própria democracia.
A partir daí, estabelece-se uma blindagem retórica poderosa. Criticar Lula ou o projeto lulopetista deixa de ser um ato político legítimo e passa a ser reinterpretado como ataque ao povo, à inclusão, aos direitos sociais e à ordem democrática. O adversário, por sua vez, é previamente deslegitimado por meio de rótulos como “fascista”, “golpista” ou “antidemocrático”, independentemente de qualquer análise objetiva de suas posições. O debate não é enfrentado, mas encerrado por classificação moral.
O efeito mais grave dessa lógica é a corrosão da própria democracia representativa. A democracia pressupõe a possibilidade real de alternância de poder, mas quando um grupo político passa a tratar sua permanência como condição moral da própria democracia, qualquer resultado eleitoral contrário a esse grupo tende a ser visto não como expressão legítima da vontade popular, mas como um desvio ou uma ameaça. Assim, o processo democrático deixa de ser um método neutro de escolha e passa a ser condicionado por uma narrativa que define previamente quem pode ou não ser considerado legítimo.
No fundo, o que se observa é a tentativa de monopolizar a legitimidade política por meio da linguagem. Ao afirmar que apenas um projeto representa o povo e a democracia, e que todos os demais representam o mal ou o retrocesso, o discurso lulopetista não fortalece o sistema democrático, mas o estreita, reduzindo-o a um campo onde apenas um lado é considerado moralmente aceitável. E quando a democracia deixa de admitir a legitimidade do outro, ela deixa de ser democracia no sentido pleno e passa a ser apenas a afirmação de um projeto de poder que se apresenta como incontestável.

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