O Artigo de Malu Gaspar e a Moral Relativa da Hegemonia Progressista

O artigo “Depois de superar o golpismo, Brasil precisa enfrentar a falta de limites do Supremo”, assinado por Malu Gaspar em 27 de novembro de 2025, merece registro histórico — não como análise jornalística, mas como documento pedagógico do que Thomas Sowell chamou de A Visão dos Ungidos: é o espetáculo da moral relativa progressista em sua forma mais cristalina: um sistema em que os fins justificam qualquer meio, desde que o meio seja usado pelo lado “certo” da história.
Logo no primeiro parágrafo, a autora louva a “vitória da democracia” pela prisão de Jair Bolsonaro e generais, apresentando-a como a derrota final de uma “trama golpista”. Parece haver uma narrativa fechada, impermeável ao contraditório com vilões e heróis absolutos. Mas a contradição explode logo em seguida: para preservar a democracia ameaçada, diz a jornalista, foi necessário que o Supremo rompesse a própria ordem democrática — e agora, finda a batalha, seria adequado “voltar ao quadrado”, “ser contido”, “exercer comedimento”.
Ou seja: a ruptura institucional foi legítima, porque praticada pelos ungidos sowelldianos. A ruptura iminente e hipotética, atribuída aos adversários fascistas da extrema-direita bolsonarista, seria ilegítima e antidemocrática, mesmo que até se utilizasse o Art. 142 da CF-88; como tentou Dilma utilizar para impedir seu Impeachment, mas foi dissuadida pelo Comandante do Exército, então General Villas Boas – e nem por isso foi considerada pela mídia como golpista e tentando uma ruptura institucional. Esse é o coração da moral revolucionária clássica do comunismo formulada por Lênin, desenvolvida por Marcuse e aplicada no Brasil pelo progressismo: há a nossa moral; e há a deles. A nossa é sempre “defensiva”, “necessária”, “profilática”; a deles é sempre golpista, fascista, perigosa. Essa lógica está inteira no texto de Malu Gaspar.
A contradição: para evitar a ruptura, praticou-se a ruptura. O artigo funciona quase como confissão involuntária. A jornalista lista — com detalhamento jamais visto antes na grande imprensa — todas as violações institucionais cometidas pelo Supremo e por Alexandre de Moraes durante os anos de perseguição política ao bolsonarismo: decisões monocráticas e de ofício; atos sem ouvir o Ministério Público; prisões preventivas indefinidas e sem denúncia; manobras regimentais para alterar o órgão julgador; e até a morte de um réu preso que poderia estar em casa com tornozeleira. Tudo isso é reconhecido como excesso — palavra que aqui funciona como eufemismo para “ruptura institucional”. Mas, estava tudo bem: eram excessos “por boa causa”.
Se o “golpismo” era tão concreto, tão óbvio, tão iminentemente perigoso, por que foi necessário um salvo-conduto institucional para justificar arbitrariedades inéditas no Supremo? Quem deu esse salvo-conduto? Em nome de quem? Sob qual fundamento constitucional? O artigo não responde — porque não pode responder. A moral relativa progressista não precisa justificar suas contradições: ela simplesmente as declara superiores.
Esse texto da Malu Gaspar sintetiza a crise terminal do jornalismo atual puramente progressista. Não há busca pela verdade factual; há gestão narrativa. E quando a narrativa exige contradição — ora, que assim seja. O jornalismo progressista funciona hoje como o clero secular descrito por Scruton, Dalrymple e Sowell: um grupo de “escolhidos” que, convencido de sua missão moralizante, acredita ter autoridade para reinterpretar a realidade conforme necessário para manter o domínio cultural e seu poder hegemônico sobre a sociedade indefesa, oprimida e incapaz.
O texto de Malu Gaspar é exemplar dessa patologia: Ela denuncia, com naturalidade, que o Supremo quebrou regras, atropelou ritos, alterou regimentos, violou garantias e operou fora dos limites constitucionais. Mas, ao mesmo tempo, reafirma que isso era legítimo e necessário, porque serviu ao projeto político da elite progressista.
Não há regra para os aliados; não há perdão para os inimigos: é a fórmula do progressismo militante desde Marcuse e Lênin: tolerância absoluta aos “oprimidos” (eles mesmos); intolerância radical aos “opressores” (a direita).
Entretanto, o artigo é um importante registro histórico, pois traz uma grande confissão: a mídia sabia de tudo — e silenciou. Há o reconhecimento explícito de que a mídia sabia de tudo, acompanhou tudo, entendeu tudo — e escolheu calar enquanto interessava. O artigo descreve: a origem ilegítima do inquérito das fake news; a escolha direta de Moraes por Toffoli, sem sorteio; o descumprimento da Procuradoria-Geral da República; as mudanças de regras para favorecer parentes de ministros; a promiscuidade institucional entre escritórios, consultorias e eventos bancados por empresas como o Banco Master. Bem, nada disso é novo para quem acompanhou criticamente os últimos anos. A novidade é que a imprensa progressista agora admite publicamente o que escondeu enquanto era útil ao projeto de poder.
Mas, por que só agora a elite progressista começa a “se preocupar com limites do STF”? A resposta é simples: Porque, uma vez atingido o objetivo político — a destruição total do adversário —, o Supremo passa a ser um problema para o próprio sistema que o alimentou. Parece que o Banco Master passou a ser um divisor de águas da hipocrisia progressista. O caso Banco Master, com relações estreitas entre seus operadores e ministros do STF, vai acabar inevitavelmente no próprio Supremo. Na verdade, o processo já acabou mesmo no STF, com Toffoli; e seu banqueiro já tevê sua prisão preventiva suspensa por tribunal de 2ª Instância. O que fará Moraes quando tiver de julgar um caso envolvendo o escritório de advocacia de sua esposa? O que fará o Supremo diante de um escândalo de dezenas de bilhões envolvendo consultorias e eventos com ministros como Gilmar, Toffoli e Barroso?
A mídia, como representante da comunicação oficial do Estado Patrimonialista Oligárquico, parece agora estar com medo de que, agora que Bolsonaro está fora do tabuleiro, o Supremo se tornar perigoso para o próprio progressismo.
O artigo de Malu Gaspar não é um erro. Ele é a consequência lógica da moral relativa progressista: a direita nunca tem legitimidade; a esquerda sempre tem razões superiores; rupturas praticadas pelos aliados são “defensivas”; rupturas hipotéticas atribuídas aos adversários são “golpes” concretos contra a democracia; a democracia só existe quando serve ao projeto progressista e quando não serve, é flexível, ajustável, reinterpretável. Por isso o texto soa tão contraditório: ele louva o Supremo pelo abuso, critica o Supremo pelo abuso e justifica o abuso; tudo no mesmo movimento. É a contradição estrutural da hegemonia progressista: para salvar a democracia, destruíram a democracia — e querem que aplaudamos o feito.

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