
O artigo “O gênio xandônico não voltará mais à lâmpada”, de Carlos Andreazza, publicado em 28 de novembro de 2025, é o registro jornalístico mais importante desde a redemocratização, pois é a confissão mais explícita já feita pela mídia progressista sobre o regime de exceção judicial que se consolidou no Brasil. Diferentemente dos textos que tentam disfarçar arbitrariedades sob o pretexto da defesa da democracia, Andreazza assume sem rodeios que não houve simples excessos, mas uma transformação estrutural do sistema: aquilo que Moraes fez não foi uma sequência de decisões extraordinárias — foi a criação de um modelo de poder. Ele afirma, de forma quase didática, que o “gênio” não volta mais para a lâmpada porque o precedente institucional permanece mesmo que o operador mude. É a admissão de que o país passou por uma mutação constitucional informal, na qual o tribunal reinventou suas próprias prerrogativas.
Tudo no texto aponta para essa conclusão. O autor reconhece que o mecanismo de exceção está ancorado em uma noção de “ameaça permanente”, de um 8 de Janeiro eterno, que funciona como justificativa infinita para que o Supremo aja sem limites. Se a ameaça é constante, a exceção também deve ser; e isso, por definição, significa que o estado de exceção se transformou na nova normalidade. Para Andreazza, é ingenuidade esperar que, uma vez cumprida a missão política de destruir o adversário — com a condenação e prisão de Jair Bolsonaro —, o STF recuará. Poder não se devolve, não se renuncia: se expande. O próprio texto confirma isso ao lembrar que nem Aras nem Gonet, nem o colegiado da Corte, nem o Ministério Público foram capazes de conter a ampliação contínua da autoridade do ministro.
A análise de Andreazza vai além e admite que o Supremo incorporou funções que não lhe pertenciam: poder de polícia, poder de investigação, poder de acusação e jurisdição final sobre si mesmo. Fala de decisões “esquentadas”, acusações encomendadas, denúncias feitas por assessor do próprio ministro — elementos que, em qualquer democracia minimamente séria, configurariam escândalos institucionais. Mas o autor descreve tudo com a naturalidade de quem aceitou que essa é a ordem vigente. Ele admite também que a censura prévia virou doutrina: a crítica preventiva ao STF foi convertida em ataque às instituições, e a opinião passou a ser tratada como crime. A expressão “ditadura do Supremo”, segundo ele, tornou-se automaticamente suspeita, e isso é reconhecido como parte do novo paradigma de vigilância judicial sobre o pensamento.
No trecho final, o jornalista faz a confissão mais séria de todas: ao se politizar completamente, o STF deixa de ser corte constitucional e se transforma em ator político subordinado às marés da política. O mesmo tribunal que reabilitou corruptos poderá, no futuro, por força da conjuntura, reabilitar os chamados golpistas. É a admissão de que o país depende agora do humor histórico de um poder sem freios, sem contrapesos e sem limites internos. O próprio autor reconhece que a missão é eterna; logo, os poderes extraordinários também são.
O texto de Andreazza, ao contrário de funcionar como crítica, acaba funcionando como radiografia. Ele não denuncia: ele descreve. E ao descrever, confirma o diagnóstico que antes era tratado como exagero ou paranoia. O Brasil entrou num regime judicial de exceção que se naturalizou. A exceção virou doutrina; a doutrina virou prática; a prática virou jurisprudência; e, a partir desse ponto, democracia no país passa a ser aquilo que o ministro disser que ela seja. É isso que o artigo admite — e essa admissão, vinda de dentro do próprio campo progressista, é histórica.

Deixe um comentário