Referências:
– Artigo “O Gênio xandônico não voltará mais à lâmpada – Condenação dos golpistas não será o fim do expediente a recursos de exceção para combater a ameaça de exceção” de Carlos Andreazza, publicado no Estadão, em 28 de novembro de 2025.
– Artigo “Depois de superar o golpismo, Brasil precisa enfrentar a falta de limites do Supremo”, assinado por Malu Gaspar, em 27 de novembro de 2025
– Artigo “Condenação de golpistas tem de ser o fim de um ciclo de exceção”, do jornalista Pablo Ortellado, publicado em O Globo, em 28 de novembro de 2025.
Os três artigos publicados pela mídia progressista nos dias 27 e 28 de novembro de 2025 formam um documento histórico sobre a transformação institucional do País. O texto de Malu Gaspar, o de Pablo Ortellado e, sobretudo, o de Carlos Andreazza revelam, cada um à sua maneira, que o Brasil atravessou uma ruptura real: deixou de ser uma democracia constitucional e passou a operar sob um regime judicial de exceção permanente, naturalizado e irreversível pelos mecanismos formais da própria Constituição. Os dois primeiros artigos — o de Malu e o de Ortellado — são peças típicas da hegemonia progressista em crise, impregnadas da velha moral relativista que sempre justificou os métodos mais arbitrários em nome de fins supostamente superiores. Ambos começam celebrando a “vitória da democracia” com a prisão de Bolsonaro e de generais, mas logo admitem, com espantosa naturalidade, que essa vitória só se tornou possível porque o Supremo Tribunal Federal violou sistematicamente limites constitucionais. Enumeram prisões sem denúncia, decisões monocráticas, investigações conduzidas pelo próprio tribunal, censura, segredo de justiça generalizado e até mortes em custódia — tudo suavizado pelo eufemismo dos “excessos por boa causa”. É a doutrina leninista aplicada ao Brasil: a moral dos “nossos” é sempre defensiva, necessária, sanitária; a moral dos “outros” é sempre criminosa. Assim, rupturas praticadas pela esquerda são ressignificadas como medidas de proteção institucional; rupturas atribuídas à direita — ainda que hipotéticas e não nunca concretizadas — são tratadas como ameaças existenciais que legitimam qualquer reação estatal.
A hipocrisia é evidente. A mídia sabia de tudo o tempo inteiro. Todos os principais jornalistas da dita grande mídia sabiam da origem ilegítima do inquérito das fake news, da escolha do relator sem sorteio, das violações explícitas ao sistema acusatório, da censura prévia mascarada de tutela democrática, da perseguição política disfarçada de combate à desinformação, e da promiscuidade entre ministros, escritórios de advocacia e interesses privados. E, apesar disso, calaram-se. Ficar em silêncio era necessário apenas enquanto era útil ao projeto político. Só agora, com o adversário destruído, fingem preocupação com “limites”, “transparência” ou “retorno à normalidade”.
Mas é o texto de Carlos Andreazza que finalmente diz, sem metáforas, o que estava subentendido em todos os outros: o gênio não volta mais para a lâmpada. Moraes não criou uma série de medidas extraordinárias; criou um modelo. Um padrão. Um método de poder. Um precedente que permanecerá mesmo quando o operador desaparecer. Andreazza reconhece que o Supremo assumiu funções de polícia, de investigação, de acusação, de juiz e de censor. Reconhece que a criminalização preventiva da opinião virou norma; que a ameaça golpista eterna virou fundamento jurídico para uma exceção eterna; que a doutrina de censura se institucionalizou; e que o tribunal se politizou de tal forma que agora é refém das próprias marés políticas que ajudou a movimentar. Seu texto admite que não existe qualquer perspectiva real de recuo: poder concedido e legitimado não se devolve. Poder sem contrapesos se expande indefinidamente.
Assim, os três artigos oferecem a radiografia mais precisa da “Brasização” socialista em curso. Não é realmente “Venezuelização” – pois cada país tem seu próprio caminho para se destruir com identidade. Mas aqui ainda é algo pior, porque é mais sofisticado, mais sutil, mais travestido de legitimidade jurídica. É um regime em que a exceção virou doutrina, a doutrina virou prática e a prática virou jurisprudência. É um país onde democracia passou a ser aquilo que o ministro disser que ela seja. E, como reconhece o próprio Andreazza, a missão declarada é eterna — logo, os poderes extraordinários também são. Essa é a confissão final da mídia progressista: o Brasil entrou num regime judicial de exceção que não poderá ser interrompido por vias democráticas. E eles sabem disso. Sabem há anos. Só agora resolveram admitir.

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