O FALSO UNIVERSALISMO PROGRESSISTA E A FALÁCIA CIENTÍFICA DO “CÍRCULO MORAL EXPANDIDO”

O estudo Ideological Differences in the Expansion of the Moral Circle (Nature Communications, 2019) foi recebido pela comunidade acadêmica progressista como mais uma “prova” de que liberais seriam moralmente superiores: mais empáticos, mais altruístas e mais abertos à humanidade. No entanto, uma leitura crítica — e verdadeiramente científica — revela que o trabalho reflete antes de tudo a hegemonia ideológica que domina o meio acadêmico ocidental, e não uma descoberta objetiva sobre a natureza humana.

O artigo parte de uma premissa simpática à esquerda: a ideia de que quanto mais universal é a preocupação moral, mais “evoluída” seria a mentalidade. Conservadores, nesse modelo, aparecem como restritos ao amor familiar e paroquial; liberais, como altruístas cósmicos. É o mesmo roteiro moralista que transforma o progressismo em sinônimo de virtude e o conservadorismo em uma caricatura de egoísmo.

Mas os próprios autores reconhecem duas fragilidades metodológicas que, quando examinadas a fundo, desmontam a pretensão de neutralidade científica do estudo.

1. O viés da autoimagem progressista

Os dados foram obtidos por autodeclaração — ou seja, por meio de questionários em que os participantes descrevem a si mesmos. Trata-se de um erro clássico: medir a moralidade pelo discurso, e não pela ação. Um progressista acostumado à retórica pública de “inclusão” e “empatia” tende a responder o que deseja parecer, não o que realmente pratica.

Não há aqui nenhum controle de comportamento espontâneo. Nenhum teste de generosidade real, de ajuda concreta ou de sacrifício pessoal. Apenas o relato subjetivo do próprio indivíduo — o mesmo que, nas redes sociais, faz da virtude um espetáculo.

Essa falha transforma a pesquisa em um espelho do narcisismo moral progressista, não em uma janela para a natureza humana. Roger Scruton já advertia: “A moralidade da esquerda moderna é performativa — ela existe para ser vista.”

2. A inversão causal: ideologia ou moralidade?

A segunda deficiência é de ordem causal. O estudo não demonstra se a ideologia molda o círculo moral ou se o círculo moral pré-existente leva à ideologia. A diferença é fundamental.

Talvez o progressista se declare universalista porque aprendeu a fazê-lo, não porque seja de fato mais compassivo. A ideologia pode produzir o discurso moral como parte da sua identidade, e não como reflexo de uma virtude real.

Thomas Sowell descreveu esse fenômeno com precisão em A Conflict of Visions: para o liberal moderno, a moralidade é declaratória; para o conservador, é vivencial. A esquerda acredita que boas intenções justificam políticas universais; a direita entende que o amor genuíno nasce da responsabilidade pessoal, não de slogans coletivistas.

3. O olhar clínico de Rossiter

Lyle H. Rossiter, em The Liberal Mind, explica que o progressista típico sofre de uma infantilização moral: ele busca um Estado-pai que “ame” a todos indiscriminadamente, sem distinguir mérito, responsabilidade ou reciprocidade. Seu universalismo é, portanto, emocional e dependente, não ético e racional. É fácil “amar a humanidade”; difícil é amar o próximo concreto — tarefa que o conservador realiza silenciosamente, em família, na comunidade, no trabalho.

4. O contraste moral real

A verdadeira diferença entre as duas mentalidades não é de amplitude moral, mas de fundamento moral.

O progressista proclama um amor abstrato por toda a humanidade, mas muitas vezes despreza o vizinho que pensa diferente.

O conservador pode concentrar sua lealdade em círculos próximos, mas o faz de modo concreto, estável e responsável, cultivando o bem real onde vive.

Scruton chamava isso de “ética da pertença”: o reconhecimento de que a moralidade nasce da lealdade, do dever e da continuidade — não da exibição pública de compaixão.

5. Conclusão

O artigo da Nature Communications revela menos sobre psicologia política e mais sobre o espírito de época que domina o Ocidente acadêmico. Ele traduz, em linguagem científica, o mesmo mito que alimenta o moralismo progressista: o de que a esquerda ama mais e a direita teme mais.

Mas a experiência, a história e a psicologia mostram o contrário. O verdadeiro humanismo não é o do “círculo moral ilimitado”, e sim o da caridade enraizada, do amor responsável e silencioso — aquele que se realiza em ações concretas e não em questionários de virtude.

É o que Scruton chamaria de “amor à casa comum”, Sowell de “visão trágica da natureza humana”, e Rossiter de “maturidade emocional conservadora”: a consciência de que não se muda o mundo proclamando amor por todos, mas amando de verdade os que estão ao redor.

RESUMÃO RB

O universalismo progressista, tão exaltado por pesquisas acadêmicas – como o estudo Ideological Differences in the Expansion of the Moral Circle (Nature Communications, 2019) – , é antes de tudo uma emoção performática travestida de ética. Ele não nasce da experiência concreta do amor, mas da necessidade psicológica de parecer virtuoso. Seu universalismo é, portanto, emocional e dependente, não ético e racional. É fácil “amar a humanidade”; difícil é amar o próximo concreto — aquele que nos contradiz, que pensa diferente, que nos obriga à paciência e ao perdão. O conservador, ao contrário, não proclama amor universal em discursos, mas o pratica silenciosamente, no cuidado da família, na responsabilidade pelo trabalho, na preservação da comunidade.

A diferença entre ambos é de natureza moral, não de escala. O progressista fala de um amor abstrato que se dissolve no coletivo; o conservador vive um amor concreto que se manifesta em gestos cotidianos. A esquerda busca transformar empatia em política de Estado; a direita entende que a moral começa no indivíduo e se expande organicamente, sem imposição. Thomas Sowell chamaria isso de visão trágica: reconhecer os limites da natureza humana e agir dentro deles com responsabilidade. Scruton o descreveria como ética da pertença — a consciência de que o verdadeiro bem é aquele que nasce do dever e do enraizamento, não do sentimentalismo universalista.

Lyle H. Rossiter vai ainda mais fundo: para ele, o progressista típico permanece preso à dependência emocional do Estado-pai, que promete amar todos igualmente, mas termina tratando adultos como crianças. Por isso, seu amor “universal” é apenas um reflexo do próprio medo — medo da liberdade, da responsabilidade e do mérito. Enquanto o progressista se exibe como salvador da humanidade, o conservador continua sustentando, em silêncio, a civilização que o outro julga, mas da qual depende para existir.

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