Raimundo Faoro, em Os Donos do Poder, descreveu o estamento burocrático como a elite política-administrativa que, desde a formação do Estado português e colonial, apropria-se da máquina pública não como instrumento de serviço, mas como patrimônio privado de castas políticas. Essa engrenagem se perpetua sob novas siglas, alianças e discursos, mas mantém sua essência: o controle do Estado como fonte de poder e renda.
No Brasil contemporâneo, esse estamento encontra sua expressão mais acabada no Centrão, coalizão amorfa de partidos fisiológicos que se apresenta como fiel da balança de qualquer governo. Nem de esquerda, nem de direita, mas sempre a favor de sua própria sobrevivência, o Centrão atua como guardião dos privilégios da velha ordem, parasitando a estrutura estatal.
A experiência petista ilustra bem esse processo. O PT surgiu com o discurso de ética na política e de ruptura moralizante com o fisiologismo, mas acabou sendo absorvido pelo estamento burocrático. Ricardo Vélez Rodríguez, em A grande mentira: Lula e o patrimonialismo petista, demonstra como o partido, ao invés de romper com o patrimonialismo, passou a reproduzi-lo em larga escala, transformando-se em engrenagem central do sistema que antes dizia combater. O resultado foi o aprofundamento da lógica de apropriação privada do público, sob roupagem de projeto social.
O fenômeno Bolsonaro, por sua vez, rompeu essa lógica em 2018. Sua ascensão não foi obra de partidos, mas de uma revolta popular contra o sistema – contra a hegemonia petista e também contra o falso revezamento representado por PSDB e MDB, que funcionavam como o “jogo de tesouras” denunciado por Olavo de Carvalho. Bolsonaro, sem uma máquina partidária própria, encarnou uma direita difusa, popular e independente, que não devia fidelidade ao estamento burocrático.
É justamente aí que se instala o choque. O Centrão aceita os votos da direita, mas recusa a refundação do país que essa direita demanda. Anistiar Bolsonaro significaria reconhecer uma alternativa real à ordem estabelecida – algo que ameaça a sobrevivência de caciques, empreiteiros e gestores de verbas. Por isso, enquanto a esquerda tradicional foi absorvida pelo estamento, agora se busca neutralizar o bolsonarismo, mantendo apenas seu eleitorado cativo dentro de partidos controlados.
O paradoxo é claro: o povo majoritariamente conservador é convidado a votar, mas sem direito de ser verdadeiramente representado. O Centrão oferece um simulacro de democracia, uma “direita de vitrine”, domesticada, que garante legitimidade formal ao regime enquanto preserva intacta a engrenagem parasitária do Estado.
Neste contexto, a ofensiva contra Bolsonaro e sua base não é mero embate eleitoral: é uma luta de sobrevivência do estamento burocrático contra a única corrente política que surgiu fora de sua órbita desde a redemocratização.

Deixe um comentário