Resumo
O presente artigo investiga o capítulo “As Tarântulas”, de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, como base filosófica para a crítica da moralidade do ressentimento, centrada na figura daqueles que usam a justiça como disfarce para sua sede de vingança. Essa análise é então relacionada a autores contemporâneos como Antônio Risério, Jordan Peterson e Thomas Sowell, que criticam o identitarismo progressista e a cultura woke como expressões modernas dessa moral reativa. O artigo argumenta que o igualitarismo militante atual, ao instrumentalizar minorias em nome da justiça social, repete a estrutura da moral de rebanho denunciada por Nietzsche: uma tirania dos fracos que busca nivelar por baixo, silenciar a excelência e legitimar o ódio sob o manto da virtude.
Palavras-chave
Nietzsche; Ressentimento; Igualitarismo; Cultura woke; Identitarismo; Justiça; Filosofia política.
1. Introdução
Friedrich Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra, tece uma crítica contundente à moral baseada no ressentimento — um tema central no capítulo “As Tarântulas”. Essa crítica, embora escrita no século XIX, permanece relevante no debate atual sobre o identitarismo progressista e a cultura política do século XXI. Autores como Antônio Risério, Jordan Peterson e Thomas Sowell observam que a militância identitária moderna frequentemente disfarça ódio, inveja e vontade de poder sob o vocabulário da justiça social.
Este artigo propõe uma leitura aprofundada do capítulo “As Tarântulas”, evidenciando como Nietzsche antecipa os perigos de uma moralidade que abandona a criação de valores para se tornar um mecanismo de punição, e analisa como essa visão pode ser aplicada à crítica contemporânea da cultura woke.
2. Justiça como Vingança: A Base da Moral do Ressentimento
No capítulo, Nietzsche personifica o ressentimento moral na figura da tarântula — criatura venenosa, que proclama justiça, mas cuja essência é o ódio disfarçado.
Ele escreve:
“O que chamamos a justiça é encher o mundo das tempestades de nossa vingança.”
Aqui, a justiça é desmascarada como instrumento de vingança dos impotentes contra os fortes, os criadores, os livres. Trata-se de um movimento que busca não elevar os fracos, mas destruir os fortes. Nietzsche percebe essa pulsão, não como defesa legítima, mas como expressão de uma vaidade “acriminosiosa” e inveja ancestral; uma loucura de vingança.
Essa moral, fundada no ressentimento, é, para Nietzsche, niilista: ela nega a vida, a criação, a potência, em nome da igualdade.
3. O Igualitarismo como Tirania dos Fracos
Nietzsche vai além ao identificar no discurso da igualdade uma máscara para desejos autoritários. A igualdade, quando pregada por ressentidos, não é expressão de justiça, mas de tirania da impotência:
“É assim, pregadores da igualdade, que a loucura tirânica da impotência reclama aos gritos igualdade; vossos mais secretos desejos de tiranos se mascaram assim sob nomes virtuosos.”
O autor percebe nesse clamor por igualdade uma forma de dominação — não mais baseada na força física ou na excelência, mas na chantagem moral. É a ascensão da moral do rebanho, onde o fraco não apenas busca proteção, mas tenta suprimir qualquer manifestação de força, genialidade ou autonomia.
4. O Tribunal Moral e a Felicidade do Julgamento
Nietzsche nota ainda que os que se dizem justos se alegram não na virtude, mas no poder de julgar e condenar:
“Todas as queixas apresentam um som de vingança, cada um de seus elogios trai a intenção de prejudicar; e a felicidade, para eles, é erigirem-se em juízes.”
Esse diagnóstico antecipa a cultura contemporânea do cancelamento e da censura moral, onde a função social do militante é julgar, condenar e excluir — frequentemente com orgulho.
Nietzsche identifica nessa prática o triunfo do niilismo passivo: uma cultura que prefere destruir o que é elevado a enfrentar sua própria impotência.
5. As Tarântulas Hoje: Cultura Woke e Moralidade Identitária
5.1 Antônio Risério
Em Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária, Risério denuncia como a esquerda abandonou o universalismo iluminista em favor de uma política tribalizada, onde toda crítica vira opressão e toda vítima é santificada.
Risério vê nisso um novo tipo de autoritarismo: um fascismo de esquerda, onde a igualdade se torna máscara para intolerância e minorias passam a ser instrumentalizadas como armas morais, e qualquer discordância é tratada como violência.
Sendo que Nietzsche já profetizava o nascimento de uma nova tirania, com a “pregação da morte”, referindo-se à negação da vida, da criação, da diferença:
“Eles procuram prejudicar assim os que detêm atualmente o poder, pois é entre aqueles que a pregação da morte encontra seu melhor lugar.”
5.2 Jordan Peterson
Peterson ataca a política identitária como forma de coletivismo autoritário. Ele vê nela a repetição do tribalismo marxista, agora com novas máscaras. Em vez do proletariado contra a burguesia, temos minorias contra maiorias, todos reduzidos a categorias fixas. Isso elimina o indivíduo, como Nietzsche temia, e promove o ressentimento como motor da história.
5.3 Thomas Sowell
Sowell argumenta que o igualitarismo moderno falha ao ignorar diferenças históricas e culturais, e transforma a inveja em política pública. Para ele, o discurso da equidade esconde uma tentativa de reengenharia social guiada pelo ressentimento — exatamente o que Nietzsche denunciou como o verdadeiro motor da falsa justiça das tarântulas.
Adicionalmente, Sowell vê no igualitarismo moderno uma tentativa de nivelamento coercitivo, que ignora mérito, cultura, história e responsabilidade individual. Isso ecoa Nietzsche: a igualdade, quando imposta por ressentidos, não é virtude — é veneno.
6. Conclusão
O capítulo “As Tarântulas” de Nietzsche fornece um arcabouço conceitual poderoso para compreender os perigos da moral identitária contemporânea e, surpreendentemente, antecipa com lucidez aspectos centrais da cultura identitária progressista que domina parte da política contemporânea. A figura da tarântula, usada por Nietzsche, representa os moralistas que falam em nome da justiça e da igualdade, mas são movidos por ódio, inveja, vingança e impotência travestidos de virtude. Em nome da justiça, da equidade e da igualdade, muitos movimentos acabam por promover uma moral destrutiva, ressentida e autoritária. Essa moral não busca elevar os oprimidos, mas destruir os que criam, inovam, divergem ou se destacam.
Nietzsche alertava:
“Ficai em guarda contra os bons e os justos! Pois eles crucificam de bom grado aqueles que inventam sua própria virtude.”
Hoje, como ontem, permanece o desafio nietzschiano: superar a moral do ressentimento e criar valores, que não nasçam do ódio, mas da afirmação da vida.
Referências
- Nietzsche, F. (2005). Assim Falou Zaratustra. Trad. Mário da Gama Kury. São Paulo: Companhia das Letras.
- Risério, A. (2022). Sobre o relativismo pós-moderno e a fantasia fascista da esquerda identitária. São Paulo: Record.
- Peterson, J. (2018). 12 Regras para a Vida: Um antídoto para o caos. São Paulo: Alta Books.
- Sowell, T. (2001). A visão dos anointed: Self-congratulation as a Basis for Social Policy. New York: Basic Books.

Deixe um comentário