A Moral Cristã e a Vontade de Potência Nietzscheana

Uma releitura a partir de Mário Ferreira dos Santos

Resumo

Este artigo propõe uma nova leitura do pensamento de Friedrich Nietzsche com base na leitura de Assim Falava Zaratustra em função da crítica filosófica de Mário Ferreira dos Santos. A hipótese central é que a vontade de potência nietzscheana, compreendida corretamente, não se opõe à moral cristã tradicional, mas pode culminar nela. Através da análise da simbologia dionisíaca, das críticas ao ressentimento e da proposta do além-homem, confrontadas com a teologia escolástica tomista e a concepção ontológica dos Dez Mandamentos, defende-se que a moral objetiva cristã representa a mais elevada expressão da potência humana ordenada segundo o Logos.

Palavras-chave: Nietzsche; Mário Ferreira dos Santos; vontade de potência; moral cristã; teologia escolástica; Zaratustra.

1. Introdução

Nietzsche foi um dos maiores provocadores da tradição moral ocidental. Em Assim Falava Zaratustra e em suas obras posteriores, anuncia a morte de Deus, a crise dos valores tradicionais e a necessidade de um novo tipo de homem, o “além-homem”, criador de valores, guiado pela vontade de potência[^1]. Entretanto, essa ruptura com a moral cristã, segundo Mário Ferreira dos Santos, revela uma limitação profunda: Nietzsche teria desconhecido a verdadeira natureza da moral cristã conforme elaborada pela teologia escolástica, em especial por Tomás de Aquino[^2].

Este ensaio parte da hipótese de que, ao contrário do que Nietzsche supunha, o processo de afirmação da vontade de potência pode ter encontrado sua expressão mais elevada justamente na moral cristã tal como formulada pela Escolástica: não como negação da vida, mas como culminação de sua ordenação racional e divina. Nesse sentido, o além-homem nietzscheano e o homem virtuoso cristão poderiam convergir como figuras da mesma ascensão do espírito.

2. Nietzsche, Zaratustra e a Vontade de Potência

Em Zaratustra, Nietzsche propõe um novo tipo de homem que transcende o bem e o mal convencionais, superando os valores herdados da tradição judaico-cristã[^3]. Ele denuncia o ressentimento dos fracos que, incapazes de afirmar a vida, criam uma moral de rebanho, de negação dos instintos e da potência vital. Daí sua famosa proclamação: “Deus está morto” — ou seja, o valor central da cultura europeia perdeu seu vigor existencial e não comanda mais as consciências.

A vontade de potência surge, então, como princípio ontológico e criador. Tudo o que vive, vive afirmando-se, superando-se, transvalorando valores. Nietzsche quer, assim, libertar o homem da moral da culpa e conduzi-lo à criação de si mesmo.

3. A Crítica de Mário Ferreira dos Santos: O Mal-entendido Nietzscheano

Segundo Mário Ferreira dos Santos, Nietzsche não compreendeu o verdadeiro sentido da moral cristã. Sua crítica, embora penetrante, dirige-se ao cristianismo deturpado do seu tempo — moralista, decadente, luterano ou pietista — e não à tradição metafísica da Escolástica[^4].

A teologia tomista não propõe uma moral servil, mas uma ética fundada na participação da razão humana na razão divina (lex aeterna)[^5]. Os Dez Mandamentos não são arbitrários, há os que se referem a Deus, que são invariantes, e os que se referem aos homens, que são históricos: são expressões do ser, da estrutura moral objetiva do universo. Para Tomás de Aquino, obedecer a Deus é obedecer à verdade do ser, à ordem natural inscrita no próprio real.

Assim, Mário vê Nietzsche combatendo uma caricatura da moral cristã, não sua verdadeira essência. Faltou-lhe conhecer a Escolástica, como ele mesmo observa nas notas de sua tradução de Zaratustra[^6]. Faltou-lhe reconhecer que a vontade de potência pode ser sublimada, não negada, pela lei moral divina.

4. A Moral Cristã como Culminação da Vontade de Potência

A hipótese central que propomos é que a vontade de potência, longe de ser contrária à moral cristã, pode ter culminado nela. A Lei de Deus, revelada nos Dez Mandamentos e aprofundada pela razão escolástica, não é uma negação dos instintos vitais, mas sua ordenação superior.

A vontade de potência, núcleo dinâmico da ontologia nietzscheana, é a expressão mais profunda da vida enquanto devir, enquanto criação contínua de formas e sentidos. Nietzsche concebe o homem não como um fim em si, mas como uma ponte, uma transição — “uma corda estendida entre o animal e o além-homem” —, cujo valor reside no que ele é capaz de superar. Nesse horizonte, a existência adquire seu pleno significado não em um estado estático, mas no movimento dialético do porvir, no eterno retorno, que exige do espírito a capacidade de afirmar infinitamente sua existência e escolhas. A vontade de potência, portanto, é essa força afirmadora, criadora, que nega a estagnação e aponta para a superação constante.

Essa superação dialética pode, surpreendentemente, culminar na tradição moral cristã, especialmente quando compreendida em sua dimensão ontológica pela teologia escolástica. Se a vontade de potência visa a elevação do ser a formas superiores de ordenação, então a moral cristã — entendida como expressão racional e espiritual da lei natural — pode ser vista como a culminação dessa ascensão.

O homem que segue a moral cristã não é um escravo: é um ser que elevou sua potência às alturas da inteligência espiritual. Ele não vive pelo medo ou pelo ressentimento, mas pela virtude heroica. Ele realiza a si mesmo segundo a razão do ser. A moral cristã, então, seria a expressão mais elevada da vontade de potência: não uma criação arbitrária, mas a descoberta e a adesão à verdade ontológica inscrita no real.

5. Quatro Pontos de Integração: A Síntese Possível

  1. A vontade de potência como processo histórico-teológico: A potência criadora não precisa ser destruidora dos valores anteriores, mas pode ser interpretada como o dinamismo que levou o homem histórico à revelação moral mais elevada, que não nega a vida, mas a ordena conforme o Logos.
  2. O além-homem como homem moral escolástico: O novo homem de Nietzsche se realiza não ao romper com a ordem, mas ao interiorizá-la como expressão de sua liberdade racional. A vontade não se opõe à lei; ela se aperfeiçoa nela.
  3. Deus não negado por Nietzsche: O “Deus está morto” é um diagnóstico espiritual, não metafísico. Nietzsche rejeita o Deus morto da hipocrisia moderna, mas não o Deus vivo da razão e do ser. Seu pensamento está impregnado de sede metafísica.
  4. A moral objetiva como verdadeira potência: A obediência à lei natural divina não é uma subserviência, mas a maior expressão de autonomia espiritual. O homem virtuoso é aquele que criou a si mesmo segundo a ordem do ser, participando do absoluto.

6. Conclusão: O Deus que Nietzsche não Negou

Nietzsche não negou Deus como ser absoluto. O “Deus está morto” é uma constatação cultural, não uma prova metafísica. Há em sua obra traços de misticismo, de busca do sagrado, de sede de absoluto[^7]. É possível que tenha intuído o Logos, mas rejeitado a forma histórica e religiosa em que ele se apresentou.

Por isso, Mário Ferreira dos Santos pode ser lido como um crítico que resgata Nietzsche de si mesmo, mostrando que a vontade de potência pode ser reconciliada com a moral objetiva, racional e divina da tradição cristã. O além-homem e o homem virtuoso podem, em última instância, ser o mesmo: aquele que se realiza em plenitude porque obedece à ordem do ser, que é a própria vontade de Deus.

Nietzsche buscou superar o homem — talvez não tenha percebido que isso já havia ocorrido, através das leis morais invariáveis do Mandamentos.

Referências

[^1]: NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falava Zaratustra. Trad. de Mário Ferreira dos Santos. São Paulo: Logos, 1964.

[^2]: FERREIRA DOS SANTOS, Mário. Notas à Tradução de Zaratustra. In: NIETZSCHE, F. Assim Falava Zaratustra. São Paulo: Logos, 1964.

[^3]: NIETZSCHE, F. Genealogia da Moral. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

[^4]: FERREIRA DOS SANTOS, Mário. Filosofia Concreta. São Paulo: Editora Matese, 1960.

[^5]: AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Trad. Alexandre Corrêa. São Paulo: Loyola, 2001.

[^6]: FERREIRA DOS SANTOS, Mário. Notas à Tradução de Zaratustra, op. cit.

[^7]: ROSEN, Stanley. The Mask of Enlightenment: Nietzsche’s Zarathustra. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

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