
Teria dito um historiador que a sociedade brasileira vive sem memória histórica, pois para o brasileiro o presente é somente carpe diem quam minimum credula póstero, o futuro, então, a deus pertence, e sobre o passado, não lembra nem o que comeu ontem, ainda mais de eventos históricos importantes para a cultura, a tradição e os valores da sua sociedade que sacudiram o País há sessenta anos.
O atual Presidente, que outrora era comprovadamente desprovido de qualquer ética e moral, mas que agora foram a ele restituídas por tribunal supremo, parece estar trabalhando firmemente para consolidar a cultura nacional de olvidamento da história, pois determinou a seus ministros que “não façam solenidades ou produzam material alusivos aos anos de chumbo”.
Entretanto, está mais do que na hora de que nós mesmos, brasileiros, cidadãos comuns demonstremos que estamos dispostos a anular tamanha aberração cultural, ajudando, da maneira que pudermos, a manter viva a verdade histórica, buscando desconstruir as inúmeras e nefastas tentativas ideológicas extremistas que visam alterá-la.
Não falaremos ou faremos alusão ou apologia a qualquer tipo de ditadura, de atos de violência ou tortura ou a anos de chumbo, nem poderíamos, pois seria contraditório ao que se pretende e fantasioso. Assim, recordaremos nesta data o que aconteceu no dia 31 de março de 1964 e nos dias que o antecederam, e não os eventos desencadeados nos 21 anos seguintes até 1985, pois não é o seu futuro que descreve um fato histórico.
Primeiramente, é fundamental jogar a verdade em cima da fantasia histórica de que no dia 31 de março de 1964 ocorreu um golpe militar, quando todos os militares das forças armadas unidos, num processo demoníaco, tomaram o País à força e o transformaram no dia seguinte numa ditadura feroz mandando prender e torturando todos os opositores humanistas relativistas de extrema-esquerda, na época, autodesignados de comunistas.
Nesse sentido, o evento histórico chamado atualmente pela extrema-esquerda brasileira de “golpe militar de 64” foi verdadeiramente um MOVIMENTO CONTRARREVOLUCIONÁRIO* DEMOCRÁTICO LIBERAL CIVIL-MILITAR que visou anular um processo em fase final de deflagração de GOLPE REVOLUCIONÁRIO SINDICALISTA COMUNISTA. Este um processo clássico comunista iniciado por lideranças revolucionárias comandadas por João Goulart, Darcy Ribeiro, pelo Partido Comunista Brasileiro, Sindicatos, CGT – Comando Geral dos Trabalhadores, Ligas Camponesas, e, principalmente, por Leonel Brizola e Miguel Arraes, e que tinha o apoio ou a conivência de diversos generais de esquerda ou da maioria de militares legalistas das três Forças Armadas.
* Observação: O termo “contrarrevolucionário” é um conceito filosófico marxista ainda utilizado universalmente pelas esquerdas revolucionárias para definir a reação política-social-militar da sociedade diante dos processos revolucionários de tomada de poder das esquerdas idealistas. Ou seja, um termo clássico originário da doutrina revolucionária comunista internacional. Quem quiser entender melhor, recomendo os cursos da ELAHP do PT, ministrados por Breno Altman e Valter Pomar.
Assim, o MOVIMENTO CONTRARREVOLUCIONÁRIO DEMOCRÁTICO LIBERAL CIVIL-MILITAR de 31 de março de 1964:
1) Não foi deflagado por todos os militares das Forças Armadas, mas sim por uma minoria, considerando que a maioria não era a favor;
2) Foi puramente Democrático, pois visava à manutenção da liberdade, das instituições e da lei e da ordem, e a eleger, por meio do Congresso Nacional, um presidente civil de mandato provisório até as eleições presidenciais previstas para 1965;
3) Foi idealizado e conduzido com o protagonismo de lideranças civis, em especial, os três governadores civis do Sudeste: Magalhães Pinto de Minas, Carlos Lacerda da Guanabara e Ademar de Barros de São Paulo; sendo os militares os executores das ações;
4) Possuiu o total apoio do povo brasileiro, aquela maior parcela de trabalhadores longe de influências enganadoras de sindicalistas, homens e mulheres comuns da sociedade que foram às ruas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 19 de março de 1964, com mais de 500 mil pessoas, e na Marcha da Vitória, no Rio de Janeiro, com quase 1 milhão de pessoas, em 02 de abril de 1964. Civis armados cercaram no dia 31 de março o Palácio Guanabara para defendê-lo. Foram os próprios estudantes não comunistas que colocaram fogo no Prédio da UNE no Flamengo e grupos de populares invadiram e depredaram a redação do jornal “Última Hora” no dia 1o de abril. Na Zona Sul do Rio de Janeiro, o povo festejou a vitória do Movimento agitando lenços, bandeiras e lençóis das janelas dos apartamentos, e lançando às ruas papéis picados. Caravanas de automóveis, acionando as buzinas, desfilaram pelas ruas de Copacabana, Ipanema, Leblon, Botafogo e em outros bairros da Zona Sul; e
5) Foi plenamente apoiado por toda a imprensa brasileira, exceto claro, os jornais da propaganda idealista de extrema-esquerda. Esse componente social de apoio ao Movimento, hoje, muito polêmico devido ao doutrinamento gramsciano da atual geração de jornalistas militantes, pode ser facilmente comprovado e estudado pelo completo e excelente acervo da Hemeroteca Digital no site da Biblioteca Nacional, bastando, somente para uma rápida compreensão do afirmado, restringir a análise aos jornais do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo no período de 13 de março de 1964, dia do fatídico Comício da Central do Brasil de João Goulart, a 11 de abril, quando Castelo Branco foi eleito Presidente da República pelo Congresso Nacional, com 361 votos a favor e 72 contra. Mas, vejamos:
– No dia 1º de abril de 1964, o “Correio da Manhã”, na primeira página, com o título “Fora“, dizia: “A Nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do Governo. Chegou ao limite final a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não resta outra saída ao Sr. João Goulart se não o de entregar o Governo ao seu legítimo sucessor. Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: Saia.” No “Diário de Notícias”, lia-se “Castello Branco: Insurreição é recurso legítimo. Kruel adere: II Exército contra Jango comunista.“
– “A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento” (O Dia Rio de Janeiro – 2 de Abril de 1964);
– “Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos” “Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais” (O Globo Rio de Janeiro – 2 de Abril de 1964)
– “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restaurada”… “atendendo aos anseios nacionais de paz, tranquilidade e progresso… as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-a do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal” (02/04/64-O GLOBO).
-“A Revolução democrática antecedeu em um mês a revolução comunista” (05/04/64-O GLOBO);
– “Feliz a nação que pode contar com corporações militares de tão altos índices cívicos”. “Os militares não deverão ensarilhar suas armas antes que emudeçam as vozes da corrupção e da traição à pátria.” (05/04/64-O ESTADO DE MINAS)
Por que o movimento não foi de todos os militares das Forças Armadas e sim de uma minoria?
Deve-se entender que, devido ao contexto histórico desde a Guerra do Paraguai, passando pela Proclamação da República, como golpe militar contra o Império, seguindo pelas revoluções de 1922 e de 1937 e pela tentativa de golpe de dezembro de 1955 contra a posse de JK, e chegando às vésperas de março de 1964, os militares das Forças Armadas, em especial, os generais do Exército, podiam ser divididos em 3 grupos de doutrinamento. Uma maioria esmagadora de “Legalistas”, como não poderia deixar de ser, pois a hierarquia, base dessas instituições, exigi total dedicação e subordinação (não submissão) à Constituição Federal, e, principalmente, ao Presidente da República eleito como Comandante em Chefe das Forças Armadas. Ainda, uma minoria de generais declaradamente comunistas e, no momento histórico em questão, ávidos por uma republiqueta proletária a la China ou a la União Soviética nos trópicos para fazer parte da corte socialista, como nesses países comunistas à época e hoje, a exemplo, na Venezuela. E, por fim, uma minoria de militares corajosos e esclarecidos que conspiravam contra o Governo do Vice-Presidente João Goulart que era conduzido por trás por lideranças comunistas bem estruturadas sob a influência de seu cunhadinho, Leonel Brizola e seus Grupos dos 11. Esta minoria corajosa, contrarrevolucionária, era formada em geral por oficiais que sempre lutaram pelo País, como os Generais Costa e Silva, Cordeiro de Farias e Nelson de Mello, que haviam se revoltado em 1922 e 1930 e que em 1945, haviam participado da deposição de Getúlio Vargas, e 1954, também apoiaram o afastamento do Presidente.
Agora, vamos à Verdade:
Quem eram alguns dos generais e oficiais comunistas?
– General Argemiro de Assis Brasil, Chefe da Casa Militar e principal assessor militar de Jango que o garantia que os “gorilas” constituíam minoria inexpressiva;
– Almirante Cândido Aragão, um dos “Almirantes do Povo”, nada mais nada menos do que o Comandante dos Fuzileiros Navais, tropa de elite da Marinha. Era declaradamente comunista e sindicalista, foi o responsável pelo principal acontecimento motivador do Movimento Contrarrevolucionário ao apoiar a quebra de disciplina e de hierarquia dos marinheiros revoltados no Sindicato dos Metalúrgicos;
– Ministro da Marinha, Almirante Paulo Mário da Cunha Rodrigues, que assumiu o Ministério para determinar a libertação dos marinheiros insubordinados do Sindicato dos Metalúrgicos. Tratava-se de homem de ideias esquerdistas e que não desfrutava de bom conceito entre os seus pares;
– Almirante Pedro Paulo de Araújo Suzano, um dos “Almirantes do Povo”;
– Brigadeiro Francisco Teixeira, homem conhecido como de “ideias vermelhas”, Chefe de Gabinete do Ministro da Aeronáutica de João Goulart; e
– Marechal Osvino Ferreira Alves, então Comandante do I Exército, atingiu a idade-limite para permanência no serviço ativo. Homem da confiança e amizade pessoal do Sr. João Goulart, foi nomeado Presidente da Petrobrás, concluindo o domínio da maioria comunista na Estatal.
Quem eram alguns dos generais e oficiais legalistas que, por doutrina, apoiavam o Governo Comunista de João Goulart e resistiram (ou aderiram somente de última hora) ao Movimento Contrarrevolucionário do dia 31 de março de 1964?
– Ministro da Guerra, General Jair Dantas Ribeiro (era contrário, mas estava hospitalizado no dia do Movimento, infortúnio que facilitou bastante a vitória dos Contrarrevolucionários);
– Ministro da Aeronáutica Brigadeiro Anísio Botelho;
– General Armando Ancora, Comandante do Exército (amigo incondicional de João Goulart, liderou as tropas governistas contra as tropas Contrarrevolucionárias, até aderir ao movimento na AMAN). Os Generais de seus comandos, Oromar Osório Anfrizio da Rocha Lima, Cunha Mello, Antonio Almeida de Morais e Idálio Sardemberg, estavam todos comprometidos com o Governo;
– General Castelo Branco, foi legalista quase que até o último momento. Mesmo após alinhamento de conduta com os Contrarrevolucionários no início de 1964, no dia 31 de março tentou persuadir o governador Magalhães Pinto a mandar o General Mourão retornar com as suas tropas de volta à Juiz de Fora porque ainda não seria a hora da contrarrevolução. Entretanto, o governador mineiro respondeu que já estava empenhado no Movimento e colocado a sua Polícia Militar à disposição do General Mourão; e teria acrescentado que “preferia a derrota à humilhação“;
– General Amaury Kruel, Comandante do II Exército em São Paulo era amigo pessoal de Joao Goulart. Até o final do dia 31 de março, já com as tropas de Mourão nas ruas indo de Juiz de Fora para atacar o Rio de Janeiro, ainda não havia se definido. O Governador Ademar de Barros já dera ordens à Força Pública para partir, ainda aguardando, porém, a palavra do General Kruel para lançar a sua proclamação. No final o General Costa e Silva, líder militar do Movimento Contrarrevolucionário, telefonou ao Governador Ademar de Barros, aconselhando-o a lançar a sua proclamação de apoio que foi feita, través das emissoras de rádio, garantindo que Minas não estava só no Movimento e assegurando a participação do General Kruel com o II Exército. O General Kruel, apesar de ter aderido ao Movimento, na madrugada do dia 31 de março, ligou algumas vezes para João Goulart, tentando convencê-lo a prender os comunistas, desvencilhar-se dos auxiliares suspeitos e denunciar a ilegalidade do CGT, para que pudesse ainda salvar o seu mandato. Jango, porém, não concordou com a proposta do seu amigo general, não achando correto ir contra aqueles que lhe foram leais e que o apoiavam. (Kruel: “Presidente, demita Abelardo Jurema e Darcy Ribeiro e faça uma declaração desaprovando o CGT, a UNE etc., que levarei o II Exército em apoio ao seu Governo“. Jango disse: “Não posso fazer isso com quem sempre me deu apoio. Primeiro vou esmagar Minas. Depois estudaremos as medidas a serem adotadas. Mas, primeiro vou esmagar Minas.” Kruel respondeu: “Presidente, a custo venho mantendo o controle de minha tropa preciso de resposta urgente. Receio que esta seja a última oportunidade que teremos para um entendimento como Presidente e Comandante do II Exército.”). Sem a adesão do General Kruel nos últimos instantes, uma verdadeira guerra civil teria ocorrido no Brasil a partir do dia 1o de abril de 1964;
– Figura histórica nacional, Marechal Teixeira Lott. Lançou uma proclamação dizendo: “A gravidade da conjuntura obriga-me a, mais uma vez, dirigir a palavra aos meus concidadãos, particularmente aqueles que nas fileiras do Exército Nacional, durante cinco anos e meio, deram-me a honra de servir sob o meu comando. É, pois, completamente ilógico, antidemocrático aos interesses nacionais, que se procure depor um Presidente da República mediante insurreição, sob o pretexto de discordar de soluções por ele adotadas para problemas de ordem disciplinar, econômica, financeira ou política, ou de lhe atribuir a intenção de golpear as instituições. Apelo, pois para meus concidadãos e meus antigos camaradas que se rebelaram contra o Poder Executivo da República, para que antes que os acontecimentos se agravem, ao ponto de conduzirem nossa Pátria aos horrores de uma guerra civil fratricida, reconsiderem sua atitude e voltem a acatar a atitude do Presidente da República.“;
– Generais Bandeira e Aluízio Mendes, Comandantes da 2 R.M. e 2 D.I., respectivamente;
– General Almeida de Morais, Comandante da Artilharia de Costa na Praia de Copacabana (local onde no dia 1º de abril houve combates entre Legalistas e Contrarrevolucionários. A tomada da Artilharia de Costa pelos Contrarrevolucionários foi anunciada pela TV Rio, Canal 13, que entrou no ar para apoiar o Movimento em andamento);
– General Cunha Mello, organizou força composta pelo Regimento Sampaio, 1º Batalhão de Caçadores, um grupo do 1º Regimento de Obuses e outros elementos, para enfrentar as tropas Contrarrevolucionárias indo de Juiz de Fora e de São Paulo para tomar o Rio de Janeiro;
– General Anfrísio da Rocha Lima, organizou força composta pelo Regimento Escola de Infantaria, Grupo Escola de Artilharia, 19o Grupo de Artilharia Anti-Aérea, Batalhão Escola de Engenharia e outros elementos, para enfrentar as tropas Contrarrevolucionárias indo de Juiz de Fora e de São Paulo para tomar o Rio de Janeiro;
– Coronel Gilberto Peçanha, comandante da Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações;
– Coronel Clóvis Galvão, Comandante do 10º R.l.;
– Coronel Eurico Seixo de Brito, Comandante do 2º BIB; e
Coronel Descartes Gaiva, Comandante do Regimento de Reconhecimento Mecanizado de Campinho (saiu em encontro as tropas Contrarrevolucionárias para combatê-las).
Quais os governadores do Sudeste que apoiaram o MOVIMENTO CONTRARREVOLUCIONÁRIO DEMOCRATÍCO LIBERAL CIVIL-MILITAR?
– Magalhães Pinto
Líder Civil do Movimento, o Governador de Minas, Magalhães Pinto lançou na mídia no dia 31 a seguinte proclamação: “Ante o malogro dos que, ao nosso lado, vinham proclamando à necessidade de reformas democráticas, dentro da estrutura do regime democrático, as forças sediadas em Minas Gerais, responsáveis pela segurança das instituições federais no que mais lhes importa e importa ao País, isto é, a fidelidade aos princípios da hierarquia, garantidores da normalidade institucional e da paz pública, consideram de seu dever entrar em ação, a fim de assegurar a legalidade arrancada pelo próprio Presidente da República. Nossa atitude, neste momento histórico, não representa senão o dever de nos inclinarmos aos imperativos dessa vocação. E Minas se empenhará com todas as energias do seu povo para restauração da ordem constitucional comprometida nesta hora.” Ainda, com a ameaça de João Goulart de fazer uma intervenção federal em Minas na Companhia Telefônica, declarou: “O Brasil repele e repelirá qualquer tentativa de subversão do regime de liberdade. A vocação democrática de Minas só em casos extremos tolera regimes de exceção, ou restritivos da liberdade. Se tentarem escravizar o Brasil, meus homens se levantarão“.
– Ademar de Barros
Ademar de Barros, Governador de São Paulo, aderiu ao movimento coordenando seu apoio à adesão do General Kruel. Fez sua proclamação pública pelas rádios ao lado dos Generais Cordeiro de Farias e Nelson de Mello, líderes militares do movimento.
– Carlos Lacerda
Na cidade do Rio de Janeiro, o Governador Carlos Lacerda entrincheirou-se no Palácio Guanabara, com vários oficiais do Exército, da Marinha e da FAB, sob a proteção da muitos voluntários civis e da Polícia Militar, sendo as ruas de acesso ao Palácio bloqueadas por caminhões e automóveis. O Governador Carlos Lacerda, alarmado com que se passava no País, dirigiu uma carta circular a todos os Governadores, à exceção de Miguel Arraes e Badger Silveira, alertando-os para a “Guerra Revolucionária” em curso no País e concitando-os a formarem um sistema contra ela. Fez o seguinte apelo: “Se julgar que sou digno de formular este apelo, ignore a origem e atenda ao que ele contém: um chamado à consciência democrata, um supremo esforço para que defendam a Pátria traída e a liberdade ameaçada.“
Quais os eventos históricos finais deflagradores do Movimento Contrarrevolucionário de 31 de março de 1964?
Depois da renúncia de Jânio Quadros em 1961, a extrema-esquerda brasileira iniciou processo revolucionário mais radical de tomada de poder. A famosa “Campanha da Legalidade” de Brizola, e os seus Grupos dos 11 armados, que quase nos levou a uma guerra civil, e os eventos do mês de março de 1964 demonstraram à sociedade que o processo revolucionário não teria mais volta e que algo deveria ser feito de aspecto contrarrevolucionário para a manutenção do modo de vida da nossa sociedade.
Esses foram os eventos principais que forçaram muitos militares legalistas a refletirem qual seria o papel das Forças Armadas num contexto político-social ameaçador das liberdades, forçando muitos no final a aderirem ao movimento de conservação da República e da Democracia de 31 de março de 1964:
– O Deputado Bilac Pinto, na ocasião presidente da UDN, denunciou da Tribuna da Câmara e através da imprensa que o Presidente da República tramava um golpe, à revelia das Forças Armadas, semelhante à tentativa que já fizera por duas vezes, durante o Regime Parlamentar: seu principal objetivo era o fechamento do Congresso e a intervenção no Estado da Guanabara;
– O Deputado João Calmon pregava contra o agravamento da ação comunista: “Impõe-se que nós, democratas, neste momento de grave perigo, preparemo-nos para combater os comunistas em qualquer terreno e com qualquer arma”;
– Políticos de extrema-esquerda faziam discursos subversivos de insulto a Generais e às Forças Armadas e incentivando a insubordinação da tropa. O Deputado Francisco Julião insultou o Exército em comício realizado em praça pública, chamando-o de “Exército de gorilas e anti-povo”;
– Decreto assinado por João Goulart de desapropriação de propriedades nas faixas de terra situadas às margens das rodovias e ferrovias federais, para fins de reforma agrária, conforme esforço da Superintendência de Política Agrária (Supra), presidida por João Pinheiro Neto;
– Diversas invasões de terras, promovidas por insuflados e subversivos no interior de Minas Gerais, do Estado do Rio, de Pernambuco e de outras áreas do Nordeste. Em Sergipe, cerca de 2.000 camponeses insuflados pelos comunistas, e sob a chefia do sapateiro Raymundo de Paiva, conhecido pela alcunha de “Chicão”, invadiram várias fazendas. Em Goiás, os camponeses, com o apoio do CGT e a omissão do Governador Mauro Borges, deram curso a invasões de terras. Em Governador Valadares, Minas Gerais, ocorreram vários choques entre fazendeiros e posseiros, em consequência das desapropriações de terras determinadas pela SUPRA;
– Propaganda contínua de Leonel Brizola no seu programa pela Rádio Mayrink Veiga, às sextas-feiras, pregando a “revolução popular”. Afirmava que os seus “Comandos Nacionalistas”, os “Grupos dos 11”, já somavam milhares de combatentes em todo País e que, em breve, alcançariam o total almejado de 300.000 homens, para desencadear a ação que pretendiam;
– Almoço com homenagem à João Goulart por ocasião do Aniversário da Tomada de Monte Castelo no Quartel do Regimento Escola de Infantaria na Vila Militar, com a presença da maioria dos generais em serviço no Rio de Janeiro, pois o Ministro da Guerra queria dar a impressão da força do Presidente tendo ao seu lado um expressivo dispositivo militar;
– Comício comunista na sede da Secretaria da Saúde em Belo Horizonte quando houve conflito entre os democratas liderados pelo General Bragança e os comunistas, sendo Leonel Brizola expulso a bofetadas, apesar de guardado por forte escolta de fuzileiros navais, cedidos pelo Almirante Aragão;
– Diversas declarações contra Jango. David Nasser: “Instrumento dócil em mãos hábeis, no exercício do seu mandato, antes de tudo, não passou de inimigo de si mesmo; depois de inimigo de sua pátria. Capitalista, pregava o socialismo. Latifundiário, pregava a Reforma Agrária, sem dar o exemplo. Afinal, qual era a sua meta, eis o segredo mais bem guardado de sua vida, talvez nem ele mesmo, no contrassenso de seus atos e de suas palavras, saiba o que pregou. Era um João sem bandeira nem lei.”;
– Comício do Presidente João Goulart na Central do Brasil no Rio de Janeiro em 13 de março de 1964 para o anúncio das “Reformas de Base”, entre elas a Bancária, a Agrária, a Administrativa, a Universitária e a Eleitoral, apoiadas por diversas lideranças comunistas: Dante Pallacani, pelo Comando Geral dos Trabalhadores; Clodsmith Riani, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria, Alfredo Pereira Nunes, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes Marítimos, Fluviais Aéreos; Alulzio Palhares, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Créditos; Leopoldo Silva, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura; Dante A. Menezes, pela Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio: João Ayrton Santos, Confederação pela Nacional dos Trabalhadores em Transportes Terrestres; Carlos Alberto Costa Pinto, pela Federação Nacional dos Jornalistas; Wilson Reis, pela Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas Telegráficas, Radiotelegráficas e Radiotelefónicas; Rafael Martinelli, pela Federação Nacional dos Ferro- viários: Enio Silveira, pelo Comando dos Trabalhadores Intelectuais; José Paulo da Silva, pela União dos Portuários do Brasil: Marcelo Cerqueira, pela União dos Estudantes; Bisneier Maiani, pela União dos Previdenciários do Brasil; Oswaldo Pacheco da Silva, pela Pacto de Unidade e Ação; Hércules Corrêa dos Reis, pela Comissão Permanente das Organizações Sindicais; Olímpio Mendes, pela União Brasileira de Estudantes Secundários: Sérgio Magalhães, pela Frente Parlamentar Nacionalista: Ana Montenegro, pela Liga Feminina da Guanabara; e José Manoel de Mello, pela União Brasileira dos Servidores Postais e Telegráficos. O dispositivo de segurança para garantia do comício continha cerca de 2.000 homens das Forças Armadas, além de policiais da Polícia Federal. E até mesmo carros de combate do Exército foram postados nas imediações. Viam-se entre os cartazes: “Manda brasa, Brizola”; “Salve o gloriosa CGT”; “Exigimos legalidade para o Partido Comunista”; “Para salvar o Brasil, só as Reformas Jango”; “Partido Comunista, teus direitos são sagrados”; “Queremos o registro eleitoral do PCB”; “O povo exige as Reformas de Base”; e “CGT, pesadelo dos gorilas”. Comparecimentos: o Chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro; o Chefe da Casa Militar, General Assis Brasil; os Governadores Seixas Dórias, de Sergipe, Miguel Arraes, de Pernambuco, e Badger da Silveira, do Estado do Rio: Ministro da Justiça, Sr. Abelardo Jurema, quase todos os Ministros Civis e os três Ministros Militares, Oswaldo Pacheco, representante do PUA, e vários outros presidentes de entidades sindicais e de outras organizações de classe. O verdadeiro promotor do Comício, Deputado Leonel Brizola, propôs o fechamento do Congresso. Jango, antes de sair do Palácio Laranjeiras, assinara dois decretos de grande repercussão para a massa ali concentrada, o de encampação das Refinarias de Petróleo e o da desapropriação de terras, proposta pela SUPRA. O comício resultou em desassossego geral no País. Deputados e Senadores preocuparam-se e passaram a procurar o General Cordeiro de Farias, entre os quais Afonso Arinos, Coelho de Souza e Armando Falcão. A Contrarrevolução, com aquele comício, ganhou corpo e marchou acelerada para a eclosão;
– Em São Paulo, a 19 de março, realizou-se a grandiosa “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, em defesa da democracia e das instituições. Cerca de meio milhão de pessoas, famílias inteiras, concentraram-se na Praça da Sé, com o apoio de todas as classes e do Governo Ademar de Barros, numa grande demonstração de repúdio ao comunismo;
– Movimentação do Governadores. Carlos Lacerda foi à São Paulo encontrar-se com o Governador Ademar de Barros, quando se comprometeram a apoiar o Movimento Contrarrevolucionário. Lacerda dirigiu-se, em seguida, a Belo Horizonte, para falar com o Governador Magalhães Pinto, que já estava comprometido com o movimento. Os dois conversaram e acertaram os seus compromissos. Formou-se, assim, uma força política entre os três Governadores de Minas, São Paulo e Guanabara;
– Vários deputados e senadores de prestígio participaram de entendimentos com os Generais Cordeiro de Farias, Humberto Castello Branco e Ademar de Queiroz, no Rio de Janeiro, e com o General Mourão em Minas Gerais;
– Insubordinação generalizada, com o apoio de Jango, das praças da Marinha, que fundaram uma Associação de Marinheiros e Fuzileiros e a sua diretoria estava, na ocasião, nas mãos dos comunistas;
– Revolta de milhares de marinheiros no dia 25 de março na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, apoiando as Reformas de Base de Jango. Aos gritos de “abaixo os gorilas”, aprovaram proposta de se amotinar em assembleia permanente, até que o governo fizesse cancelar as punições impostas à diretoria da associação de classe e substituísse o “Almirante Gorila”, o Ministro da Marinha, por um outro, um “Almirante do Povo”. Resistiram, foram presos e, no final, as suas reivindicações, que representavam quebra da disciplina e da hierarquia na Marinha, foram, absurdamente, atendidas por João Goulart. Ao fim desses dias, os marinheiros e fuzileiros foram postos em liberdade e desfilaram em passeata pela Av. Presidente Vargas, em comemoração à sua vitória. Foi um espetáculo dos mais tristes para as Forças Armadas, forjadas e organizadas à base da disciplina; e
– Para fechar os eventos causadores com chave de ouro, em 30 de março, o Presidente da República João Goulart participa e discursa na reunião de sargentos da Polícia Militar e das Forças Armadas do Brasil no Automóvel Clube no Rio. Escreveu Abelardo Jurema, ex-Ministro da Justiça do Governo Goulart: “O rescaldo da crise da Marinha fumegava ainda, toda a imprensa da Guanabara, rádios e televisões, a opinião pública ainda atenta, tudo ainda estava revolto e sem maiores explicações, e já na 2ª feira, após a Semana Santa, novo acontecimento fora programado para o Automóvel Clube”. Jango quis demonstrar ao País o seu prestígio pessoal junto aos graduados das Forças Armadas e da Polícia Militar da Guanabara em ato de puro apoio de um Presidente em exercício às revoltas e à insubordinação nas Forças Armadas. O discurso do Presidente foi um dos fatores que impediram uma reação efetiva de militares legalistas.
Epílogo: Sem coordenação com os generais líderes no Movimento Contrarrevolucionário, o Congresso, pela iniciativa do Senador Auro de Moura Andrade, presidente do Senado Federal, declarou vaga a presidência da República e empossou o presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzilli como Presidência da República interinamente de forma marcante, em 2 de abril de 1964, cassando o mandato de João Goulart, o que era inconstitucional, pois Jango ainda estava em território nacional. O Presidente Ranieri Mazzilli foi ao Rio de Janeiro, na tarde de 3 de abril e foi recebido pelos três Comandantes das Forças Armadas que lhe apresentaram os nomes das pessoas selecionadas e convidadas para integrar o Ministério. O Sr. Ranieri Mazzilli concordou com os nomes e ratificou a nomeação deles para ocuparem suas pastas. Os Comandantes-em-Chefe do Movimento Contrarrevolucionário foram nomeados Ministros das respectivas pastas com as demais personalidades escolhidas. A Nação retomou o seu ritmo de trabalho. Voltou o Sr. Mazzilli para Brasília, governando do Palácio do Planalto. Os atos que praticava eram, previamente, submetidos ao Comando Contrarrevolucionário, pois tinham reflexo na nova política que se instalava.
Bem, esses são os fatos e essa é a História do dia 31 de março de 1964 que deve ser contatada em seu aniversário enquanto podemos desfrutar de liberdade de expressão. VIVA!











































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