
Segundo o pensamento de Habermas, os seres humanos não costumam ser totalmente honestos na discussão, porque sempre se escapa da razão pela força da emoção. Desta forma, seria preciso estabelecer regras para que o entendimento possa existir, como através do “ideal de igualdade de fala” sem constrangimentos, da sua teoria da ação comunicativa.
Entretanto, independente das utópicas soluções regulatórias da ação comunicativa que Habermas possa ter imaginado, quando pessoas inteligentes se deparam com tal racional considerado filosófico, acaba vindo à mente algumas indagações, tendo em vista que parece haver uma contradição se pensarmos que a comunicação livre, como a constitucional liberdade de expressão, não deve ser de forma alguma direcionada por regras, mas apenas ser livre em uma democracia (de verdade, e não a democracia deliberativa socialista habermasiana):
Quem vai definir essas regras de convívio baseado no imperativo categórico kantiano? Os marcianos, já que os seres humanos acabaram de ser considerados por Habermas incapazes para isso?
Essa é, sem dúvidas, a eterna e insolúvel contradição da retórica da esquerda, em todas as suas vertentes e variações filosóficas e ideológicas, sempre partindo da premissa de que a natureza humana é essencialmente egoísta, o que torna o processo coletivista de convívio humano fraterno laico em sociedade praticamente impossível sem o socialismo.
Essa racionalidade socialista radical é a origem da aversão das pessoas, hoje autodefinidas progressistas (quanta prepotência) ou de esquerda, antes comunistas, em relação às políticas econômicas liberais que prezam pela livre concorrência honesta entre os indivíduos na sociedade civil. Assim, os socialistas entendem que não existe o livre mercado, a livre competição, a livre meritocracia, a livre iniciativa (privada) e o livre empreendimento. Ou seja, não há espaço para a liberdade negativa berliniana, que é aquela que existe quando não há nenhuma espécie de constrangimento para limitar o agir do indivíduo. Isso ocorre porque eles acreditam que essa liberdade resulta apenas em acumulação egoísta de riquezas e propriedades, que consideram ser a única causa da má distribuição de renda econômica no mundo, assim como de todas as desigualdades, fome e opressão que existem no planeta.
A única saída, e até, a princípio, óbvia, seria o CONTROLE E A REGULAMENTAÇÃO DA VIDA DO SER HUMANO, para que este consiga conviver em coletividade de forma eficaz e fraternal.
Essa “saída” é o grande mal que vem minando a evolução da humanidade desde a era moderna e a industrialização capitalista burguesa, quando os socialistas franceses e depois Marx criaram as ideias comunistas, baseadas em um Estado forte de poder coercitivo incomparável que controlaria a sociedade de forma eficaz garantindo que o convívio fosse baseado somente na razão e não nas emoções egoísticas, como esclarece o pensamento habermasiano.
Sobre as consequências nefastas dessa solução simplória e utópica aos eternos, e inevitáveis, conflitos sociais distorcidos pelas emoções da natureza humana, Hayek foi muito claro em provar que qualquer tipo de saída através do controle total ou parcial pelo Estado, tentando regular tanto a economia quanto a vida social, leva sempre ao totalitarismo.
Assim, dentro da solução socialista, fica sempre a pergunta que nunca é respondida: Quem seriam os escolhidos, entre os seres humanos egoístas e não racionais, que fariam as regras de convívio social adequadas para uma coletividade fraternal, honesta, igualitária, plural, identitária, associativa, deliberativa e distributiva? Quem? Os juízes supremos, que fazem parte do grupo das pessoas boas da Nação?
Isso, então, exigiria uma elite de sobre-humanos.
Talvez possamos ter “um comitê de notórios da sociedade com referências indiscutíveis das ciências, com a devida representatividade de todas as minorias sociais, para julgar as discussões públicas”, como propôs, infamemente, o pseudofilósofo midiático Joel Pinheiro.
Não, melhor ainda, a saída é um líder, como Lula, um demagogo político populista de extrema esquerda que se autoproclama não ser mais um homem e sim uma ideia, aquele que é capaz de trazer sozinho a felicidade a toda uma nação.
Enfim, quem?
Poderia ser eu, o escolhido para essa tarefa? Não, eu sou humano.
Pelo visto, somente os esquerdistas, os Escolhidos, os Sobre-humanos, podem se encarregar dessa tarefa extraterrestre.
O sujeito de esquerda (ontem comunista) se considera um ser escolhido, por uma divindade qualquer (na verdade ele mesmo), para ser o herói épico que trará a justiça social e a igualdade social para toda a humanidade.
O esquerdista, o Escolhido, apropriou-se descaradamente, sem que ninguém lhe autorizasse, do discurso “humanista”. Aqui, referindo-se àquele da tal “luta” por justiça social e da tal “defesa” dos direitos humanos das ditas minorias oprimidas da sociedade, incluindo ai, homossexuais, negros, pobres, índios e mulheres. Discurso este que é, certamente, inegável e indiscutível, mas apenas em si mesma.
O grande mal surge na prepotência e na arrogância do esquerdista, o escolhido, que se apropriou tanto do discurso humanista, incontestável por natureza, que se transformou no próprio discurso. Como disse o líder socialista populista nacional, ao ser preso, que já não era mais um homem, mas, uma ideia.
O esquerdista, o Escolhido, e o discurso humanista, ao se confundirem em um só, transformam o esquerdista em um ser acima das leis da moral, da ética, dos homens e divinas. A inegabilidade do discurso humanista, que o esquerdista incorporou como sendo ele mesmo, torna-o uma pessoa que não pode ser julgada ou criticada.
O esquerdista, o Escolhido, não pode ser julgado por incorporar em si mesmo o humanismo indiscutível, tornando-se, assim, o soberano absoluto, o Rei Soberano de Hobbes, da razão e das opiniões. Um déspota do dia a dia do seu convívio social que não admite ser contrariado, pois se considera o próprio bem e amor ao próximo. Ele está do lado do bem, assim, quem não está com ele, está do lado do mal. Dicotômico. Quem discordar é intimidado com violência: “Por quê?!?!… Você não concorda comigo de que no Brasil a desigualdade social mata milhares de pessoas de fome?”
O esquerdista, o Escolhido, ao ser o herói encarnado do “humanismo”, o representante do bem em prol da coletividade e por não poder ser julgado pelas suas posições humanísticas e de “luta” por igualdade social, inegáveis em si mesmas, é um ser autoritário por natureza, feroz, violento, capaz de isolar, cancelar, romper, discriminar, xingar, difamar, prender, processar, julgar, condenar e aplicar a pena por ele mesmo, a quem ouse contrariar suas opiniões, desejos e crenças políticas e sociais.
Habermas, parece que a sua teoria da ação comunicativa, falhou. Por quê? Porque envolvia seres humanos.
“… a sensação de que você (o jornalista) é um enviado dos céus e você veio aqui ensinar às pessoas o que elas devem fazer…” Tiago Liefert (falando do que o incomoda no meio jornalístico)
Entrevista Tiago Leifert no Cara a Tapa, em 01/06/2022 (48:43 min): Disponível em https://youtu.be/MkNilMirYxU
Referência:
Opinião – Joel Pinheiro da Fonseca: A quem interessa a liberdade de expressão irrestrita?

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